Era uma noite fria de um domingo de inverno e eu saí de casa com o firme propósito de dançar, dançar e dançar, até sentir o corpo exausto e feliz. Esse era o meu plano da noite, simples assim, em companhia de um amigo interessante, mas que nada prometia me oferecer além de dança e alguns dedos de prosa.
Logo que entrei reparei em vc. Minto, reparei na sua camiseta. Alguém com uma camiseta daquelas só podia dançar muito bem e eu queria testar se a minha teoria fazia sentido. Mas entrei na balada e deixei que as coisas acontecessem.
Dancei, dancei, dancei e dancei mais um pouco. O corpo solto no rítmo da música, a banda pra lá de boa que ajudava a mandar embora o frio que fazia lá fora. Sucessivamente maos se estendiam na minha direção e lá ia eu. Afinal, recusar um convite pra dançar é contra a minha religiao....
Outra mao se estendeu em minha direção e, enquanto minha mao tocava a sua, meus olhos te identificaram e o sorriso foi inevitável! Ainda nos primeiros acordes da música eu já sabia que estava mais do que certa na minha filosofia de que vc dançava deliciosamente bem. Aquele abraço que acomoda, os corpos que calmamente se encaixam, o cavalheiro que protege a sua dama delicada e incisivamente, em meio a uma pista cheia de gente disputando espaço. A música ajudava, era um daqueles xotes que eu tanto gosto, que vc fez questão de dançar do jeito que eu mais gosto: de corpo colado, em movimentos sincronizados como se fôssemos apenas um, com breves aberturas apenas pelo prazer de sentir os corpos se unindo novamente.
Seu perfume suave me invadia os pulmões com a mesma delicadeza com que vc pousava minha mao em seu peito. E isso era bom, me dava uma tépida sensaçao de aconchego. Torci baixinho para que aquela música custasse a acabar. A música acabou, mas seus braços nao se moveram de onde estavam, permaneceram a meu redor, me prendendo a vc de um jeito sutil. Se eu quisesse escapar seria fácil, mas eu nao queria. Outra música começou e voltamos a nos mover na cadência da música. Tinha a sensaçao de que vc me abraçava com mais veemência, que sutilmente trazia seu corpo um pouco mais junto do meu, seu rosto, colado ao meu, se movia delicadamente, como se quisesse me provocar. No pé do meu ouvido, vc me perguntou meu nome e me disse o seu; sua voz era doce como o toque das suas maos.
Num dos poucos momentos em que abri os olhos, percebi meu amigo a nos fitar. Uma sensação estranha me tomou, uma certa disputa entre o meu querer me entregar às suas investidas e o desconforto pelo amigo, a esta altura um mero observador.
Depois de dançarmos umas 5 músicas consecutivas vc ainda nao dava indícios de que me soltaria ao fim de mais aquela melodia. Perdida em pensamentos, te estalei um beijo na bochecha e agradeci, tinha sido realmente delicioso. Vc me disse que dançaríamos mais. Eu duvidei.
Voltei a dançar com outros cavalheiros e cada um deles só me fazia voltar o pensamento a vc, no quanto era bom estar nos seus braços.
Para minha surpresa, vc cumpriu o que prometera e novamente me estendeu a mao. Naquele momento eu sabia que estava enrascada, sabia que nao resistiria às suas sutis investidas. E assim foi. Vc foi apertando mais o meu corpo contra o seu e com a ajuda da música, realmente agíamos como apenas um. Vc alternava entre acariciar minha mao e pousá-la delicadamente em seu peito, protegida e acomodada. Em poucos minutos sua testa estava colada à minha, as pontas de nossos narizes se esbarravam displicentemente, de forma a entrecortar cada vez mais a respiração, quase que em resposta a um coraçao cada vez mais descompassado. Nao demorou e foi a vez de nossas bocas se encontrarem. Eu nao teria uma ressalva a fazer àquele beijo, ne-nhu-ma. Eu só sabia que queria mais, bem mais.
O resto da noite foi cheio de deliciosas surpresas. Seus olhinhos de vírgula, tao doces, tao expressivos, de um verde tao profundo! Seus lábios grossos que se abrem para entrada em cena de um sorriso maroto, doce e brincalhão. Suas maos macias e pequenas, seu peito largo, seus braços fortes, suas orelhas gordinhas, tudo isso no seu tamanho compacto, na altura mais do que certa pra que eu te alcance os lábios a hora que me der vontade, sem ter que pedir licença.
Falamos sério, conversamos amenidades, rimos de bobeira. Nao me pergunte como, mas meu coração vê em vc um velho conhecido e me deixa ali, inteira, sem pose e quase sem medo. A despeito da minha vontade, a noite terminou. Para meu regozijo, com um beijo quente e a promessa de que nos veríamos novamente.
A semana passou e nao houve contato. Te confesso que eu nao conseguia entender... Nao era a questão de vc simplesmente nao ligar, era o sumiço após uma noite como a que tivemos. Ou será que só eu tinha sentido aquilo tudo?!? Numa semana de tpm essas dúvidas todas só ficaram ainda mais confusas....
Aí veio o domingo e eu estava de volta àquele mesmo lugar. De alguma forma, sabia que ia te ver e isso me deixava tensa, nao sabia como seria nem a minha reaçao, que dirá a sua. Dito e feito, em 3 minutos lá dentro meus olhos te acharam em meio a todas aquelas pessoas. Tao deliciosamente baixinho como eu me lembrava, com olhos doces e sorriso cativante. A distância entre nós era de apenas alguns passos, mas parecia intransponível. A vontade de ir até vc só nao era maior do que o meu receio à sua reaçao e lá continuava eu, a dançar com outras pessoas, de olhos irritantemente abertos. Era como seu eu nao conseguisse me entregar nem sequer à música, meus olhos e meus pensamentos estavam a te acompanhar pelo salao.
O destino as vezes apronta das suas... Em busca de um pouco mais de espaço, uma das maos que se estendeu em minha direçao me levou ao outro lado do salao, exatamente ao seu lado. Vc dançava com outra pessoa, de olhos cerrados, entregue ao momento. Na marra, fechei os meus olhos, ver vc tao perto e tao longe estava um pouco além do que eu poderia lidar naquele momento. A música acabou, eu me virei pra sair dali e dei de cara com vc. Por uma fraçao de segundos, congelei. It´s now or never, me disse o anjinho sentado no meu ombro, enquanto me atirava do precipício. "Oi" foi tudo o que eu consegui articular, enquanto me virava nos 30 para me equilibrar em cima dos meus pés. Por uma fraçao de segundo vc pareceu buscar minha ficha nos arquivos da sua memória e isso me dava uma imensa vontade de correr dali. Ou simplesmente derreter, evaporar, desintegrar. Até que vc abriu um sorriso largo, me deu um abraço e antes que eu dissesse qualquer coisa, veio se justificar.
Eu acho que nunca vou saber se era verdade mesmo, se era uma desculpa bem contada ou se eu que me fiz de cega ao grau de "esfarrapice" e quis acreditar no que vc dizia. Àquela altura, importava que éramos todos sorrisos, sua mao segurava a minha e, naqueles breves momentos, eu mal conseguia ouvir exatamente o que vc dizia. Nao era a música alta da banda que iniciara sua apresentaçao que atrapalhava. O que me travava os sentidos era mesmo o nervosismo. O tum tum tum firme do coraçao me fazia surda nao apenas à banda, mas tb ao borburinho em volta; e por algum mecanismo semelhante, havia tb uma cegueira parcial. Numa balada cheia de gente, naquele momento eu só via vc. Após essa eternidade de alguns segundos, vc aproveitou a mao que já estava dada e tratou de puxar meu corpo de encontro ao seu, num convite irresistível para aquela dança.
De forma tao delicada quanto provocativa, vc custou a me beijar. De alguma forma parecia que vc se esmerava em me conquistar novamente, para ter a certeza de que estava desculpado daquele dígito faltante anotado no telefone. Quando nossos lábios finalmente se encontraram, a sensaçao era a mesma: irretocável, nada sobrava, nada faltava. Nos beijamos longamente, a dança era apenas uma desculpa para nao descolarmos nenhum centímetro dos nossos corpos. Vc suspirou, me olhou firme nos olhos, sorriu e disse que estava com saudades desse beijo. Como bem diz um amigo meu, típico discurso cafajeste. Nao sei se é por isso ou apesar disso, mas como nao derreter com uma declaraçao dessas? Com um querer tao condizente com o meu???
Novamente a noite seguiu como se há muito nos conhecêssemos, a prosa rolava fluída, o riso era fácil e ia muito além dos lábios. Em alguns momentos eu confesso que nao ouvi o que vc disse, estava absorta em pensamentos, desenhando a sua geografia na minha cabeça, admirando seus doces olhos verdes, sua barba por fazer, absorvendo seu perfume e o som da sua voz.
Vc tb parecia se divertir, entregue e inteiro. Incontáveis foram as vezes em que vc simplesmente segurou meu rosto entre as maos, me fitou longamente e sorriu. Nao sei quantas outras vezes vc me deitou em seu ombro e respirou longamente em meio aos meus cabelos, parecia querer absorver um pouco de mim dentro de vc. Muitas outras foram as vezes em que seus dedos percorreram meu rosto, como uma caneta que contorna um desenho, com beijos estalados desde a testa até o queixo, sem nunca esquecer da ponta do nariz.
As vezes eu fechava os olhos, por vergonha e também para sentir esse momento de forma mais profunda com os outros 4 sentidos. Em tantas outras, permaneci de olhos abertos, pelo bel prazer de admirar sua expressao absolutamente doce ao fazê-lo e o sorriso maroto que arremata essa atitude como a cereja do sundae.
Nao nos desgrudamos mais. Cá dentro ou lá fora, sentados ou dançando, quietos, rindo ou conversando, alguma parte minha encostava em alguma parte sua e vice versa, a gente se buscava. Descobrimos afinidades, curiosidades, novidades e isso parecia nos deixar mais à vontade. Inclusive para sermos deliciosamente tontos! Afinal, como nao chamar de tontices aquelas brincadeiras que pareceram tao naturais naquele momento e que renderam tanto riso na sequência?!?
A um dado momento, em meio ao borburinho da balada, vc se recostou na parede, tomou minhas maos entre as suas. E suspirou. Me disse que precisava falar uma coisa séria. E suspirou. Eu gelei, tinha a certeza de que aquela frase a seguir nao seria boa, que eu preferiria nunca tê-la ouvido. Vc reafirmou que era sério. E novamente suspirou. Eu só conseguia pensar que vc ia dizer que era casado, com todo aquele blablablá de que o casamento já estava acabado e que vc só estava esperando isto ou aquilo para por um ponto final naquela relaçao. Aquela certeza estava me deixando puta da vida, nao era nada daquilo que eu queria ouvir. Queria que vc simplesmente me beijasse e fizesse aquela noite ser deliciosa como vinha sendo. Vc tomou meu rosto entre suas maos e aquilo me irritou ainda mais. Pra que ser tao doce se a porra da notícia que vc iria me dar eu nao ia querer ouvir?!? Sua voz interrompeu meus pensamentos, uma fraçao de segundo antes de o cenho franzido denotar meu descontentamento. A expressao que veio a seguir deve ter sido confusa. Nao bastasse vc interromper a minha linha de raciocínio, vc me veio com uma colocaçao diametralmente oposta. Seus lábios se moviam pra afirmar seu desejo de me ver de novo, de me conhecer melhor, de descobrir minhas preferências além do forró. Uma quebra dessa grandeza em meus pensamentos me deixou perdida e eu achei por bem mergulhar em seus lábios, na busca de achar algum rumo ou de perder o rumo de vez!
Era claro entre nós a vontade que tínhamos de mais. Como 2 masoquistas, queríamos mais sim, queríamos muito, mas nao tínhamos pressa nisso! Curtíamos o caminho, curtíamos a vontade crescente, curtíamos provocar e perceber que isso surtia efeitos.
No beijo da despedida, um imenso sabor de quero mais e um coraçao estranhamente tranquilo. Diferentemente da semana anterior, eu sabia que nos falaríamos. Nao, nao era pelo óbvio que eu tinha essa certeza. Talvez era por aquela mesma razao que me fazia sentir tao à vontade na sua presença.
Eu tinha razao. Ainda naquela noite vc veio me dizer que tinha sido sensacional me encontrar e que nao via a hora de nos vermos novamente.
Ainda nao sei se o seu discurso é absolutamente cafajeste ou se é de uma sinceridade tao pungente que parece irreal. Tomando pra mim algumas palavras do Lenine, ainda nao sei qual é a parte da tua estrada no meu caminho. Será um atalho? Ou um desvio? Um rio raso? Um passo em falso? Um prato fundo pra toda fome que há no mundo?
A seguir, cenas dos próximos capítulos!
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Um comentário:
Amiga,
Você me contou essa história, mas ler com todos esses detalhes e poesia foi incrível...
Que fim levou?
Bjosss
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