E aí que já faz um tempo que você fez acordar em mim a vontade de escrever que há tempos eu tinha perdido em alguma esquina errante da vida. Mas o tempo - sempre ele! - com todas as suas listas de afazeres, me convencia a deixar a vontade de lado mais um pouco. Hoje eu acabei de resolver: o tempo que pare um pouco e espere, que meu coração tá precisando desafogar-se de um jeito que só assim, com uma palavrinha atrás da outra, com um mínimo de sentido alinhavando tudo, eu consigo.
Vamos a um pequeno prefácio... Ou dois.
Facebook é um super lugar interessante pra gente descobrir coisas interessantes, por meio de gente que a gente nem sabia que tinha tanto em comum com a gente! E numa dessas aí apareceu na minha timeline um link do Casal Sem Vergonha, um blog dos mais legais do mundo, cheio de textos super bem escritos, deliciosamente sacanas e extremamente sábios. Daqueles que me deixam com uma certa invejinha do autor, por conseguir colocar em palavras, com tanta maestria, coisas que eu só sei sentir.
Dentre tantos textos que eu li, gostei, amei e passei a usar na vida, o de hoje fala de intimidade. Aquela mesma que eu vivo alardeando que não se compra no mercado, que não adianta fingir, que ou acontece naturalmente, ou não acontece. Que pode ser paulatinamente construída ou que pode ser meio que descoberta, praticamente pronta, só faltando as partes envolvidas fazerem bom uso dela. Me atrevo a dizer que essa aí é do melhor tipo, é só deitar, rolar e aproveitar as delícias que ela proporciona.
Intróito dois, nós dois. A gente se conhece já faz tempo, querendo isso dizer várias coisas, mas principalmente nada. O fundamental, na minha opinião, é que a empatia foi instantânea. Quando nossos olhares se cruzaram e a gente se reconheceu: puf, pó de pirlimpimpim no ar. Em minutos a gente já estava se abraçando e mesmo sem saber direito que nome seria mais cabível praquilo ali, sabíamos que era carinho sincero. O tempo foi passando e nos víamos com rara frequência, mas era sempre uma delícia. Por mais que a timidez sempre me trave as rodas, na sua presença eu sempre me senti à vontade, ainda que de bochechas vermelhas. Aos poucos fomos dividindo histórias, uns poucos de vida, de ponto de vista, de convivência. E era sempre bom, de me fazer voltar pra casa com a alma precisando de lastro, pra não voar alto demais.
A sintonia começou a falar alto, até que não mais pudéssemos nos fingir de surdos. E com o justo receio de arriscar um pouco e perder o resto todo, desenvolvemos nossa prosa de desafios linguísticos, nosso meio de falar muito sem dizer nada. Muito mais do que nas linhas, nós conversamos nas entrelinhas. Tantos são o respeito e a admiração que misturamos personagens da mais fina arte, com pronome de tratamento dos mais nobres e empregamos pra gente. Ninguém nunca entendeu, mas pra gente sempre fez sentido. Mais uma vez nos comunicamos muito além das linhas.
E ali, no cantinho da nossa convivência, havia uma caixinha que já mal podia segurar a tampa fechada. Seu conteúdo já estava grande demais pra capacidade de armazenamento daquela caixa. Como se houvesse algum plano de brincar com esses elementos todos, a vida deu seu jeito. Um compromisso comum cá, outro lá, uma oportunidade acolá e lá estávamos nós, nos encontrando uma vez e outra e outra. O coração palpita, a respiração falha, as mãos gelam. Nas linhas nós nunca nos manifestamos sobre nada disso, mas, de alguma forma, essa tal de sintonia, essa tal de intimidade nos davam a certeza de que as entrelinhas estavam muitíssimo bem entendidas. E a tal da caixinha cada vez mais gorda, cada vez mais perto de explodir, enquanto teimávamos em ignorar esse fato. Caixinha?!?! Que caixinha?!?!??
Até que veio maio, com a programação que a gente já sabia e com as possibilidades que a gente tinha medo de imaginar. Primeiro um encontro como outros que já tivemos, mas tão diferente de todos. Os olhares tão eloquentes, as brincadeiras que só a gente entendeu, os choques que só a gente levou. E haja concentração pra lembrar que havia todo um mundo em volta!
Eis que uma semana depois, essa tal de dona vida nos tira do mundo de todos os dias e nos põe num mundo paralelo, um mundo quase que só nosso. A ansiedade quase me corroeu, as borboletas no estômago quase me fizeram sair do chão, o coração galopante quase me escapou do peito. A despeito de todas essas inquietantes sensações, a alma estava leve, tranquila, com uma certeza conquistada não sei onde de que tudo estava mudando sim, mas de uma forma que eu não precisava me preocupar. Eu podia só fechar os olhos e inebriar meus sentidos do seu perfume, sentindo sua cabeça pesando delicadamente no meu ombro. E pra acabar comigo de uma vez, logo de saída você já me desvendou, sem qualquer parcimônia. Na lata, nas linhas, no papo reto. Com uma delicadeza da qual só vc é capaz.
Naquelas 48 horas a gente conversou de monte nas linhas, falamos da gente, da vida, da família, do trabalho, do que a gente espera. Abrimos as portas das nossas vidas, dos nossos anseios, dos nossos corações e convidamos o outro a entrar. Sem esquecer do cuidado de sermos guias, pra que você não se perca ao entrar no meu infinito particular. As entrelinhas ficaram pra uma prosa sem palavra nenhuma, de uma eloqüência irrefutável. Nossos corpos se encontraram, se entrelaçaram, quase como se nós não tivéssemos qualquer controle sobre o que estava havendo. Havia medo, de ambos os lados, do que poderia ser o resultado daquelas 48h fora do mundo; afinal, como lidar com isso de volta à vida normal?!? E todas as outras tantas variáveis intermeadas entre nós?!? Nós sabíamos de tudo isso, nós pensamos em tudo isso, apenas não fomos capazes de contar aos nossos corpos.
E aí, dormindo e acordando, com os nossos corpos conversando dessa maneira, as 48 horas se passaram. Cada minutinho foi curtido, mas pro que a gente queria, certamente que foi pouco. Todavia o mundo real estava a nos esperar, era preciso atender a este chamado, muito embora minha vontade fosse diametralmente oposta. E agora, José, como vai ser?!?
Foi aí que eu percebi, na roda da rotina girando seu eixo todos os dias, que aquela tal caixinha havia explodido. Foi tão óbvio, foi tão natural, foi tão como-tinha-que-ser que não houve destroços, não houve som, não houve rastro. O que há agora é uma impossibilidade de retornarmos ao status quo, não temos como negar que alguma coisa mudou. A tal da intimidade tá aí, nos mostrando de várias formas seus deliciosos efeitos. E a gente segue curtindo, em compasso de espera pelo próximo passo, pela próxima surpresa que pode aparecer. Sem vergonha de admitir que quero ver acontecer.
Porque maio foi incrível, junho já começou e os próximos capítulos só dependem das nossas 4 mãos pra serem escritos. Que vengan!
(28.124)
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