sábado, 9 de abril de 2011

A nossa Columbine

Difícil falar sobre alguma coisa que não conseguimos compreender. E nem acho que dê pra compreender alguém que entre numa escola, atirando a esmo. Pior: atirou não uma, nem duas vezes. Sessenta vezes.Ses-sen-ta. E atirou com o mais absoluto propósito de matar, na cabeça ou no tórax.
O local era conhecido, mas tudo leva a crer que as pessoas não eram. Ele não conhecia aqueles alunos, ninguém lhe fez nada que pudesse, minimamente, "justificar" essa barbárie.
Já falaram que ele era barbudo, calado, esquisitão. E islâmico, e esquisofrênico. Tenho medo dessas constatações mescladas à declarações apressadas e descuidadas da imprensa, que nunca antes na história deste país entrevistou tantos especialistas em tão pouco tempo. Entendo o lado da mídia e até das autoridades de precisar "explicar" uma atitude assim, inclusive para acalmar uma população já normalmente sobressaltada com níveis consideráveis de violência. Entendo (e compartilho) a necessidade das pessoas de entender as motivações dessa pessoa até para se "certificar" de que isso não voltará a ocorrer, quase que uma tentativa de recuperar a sensação de segurança em um local tão precioso quanto a escola. E pq eu tenho medo? Me deixa insegura essa sensação de pânico generalizado, em que misturar alhos e bugalhos é fácil demais. Tenho medo de que todo islâmico/esquisofrênico/barbudo-caladão seja taxado de psicopata-assassino-de-criancinhas. A mistura medo+desconhecimento+alarme da mídia é uma bomba relógio pra isso...
Na ânsia da notícia, do drama, tenho visto na tv algumas colocações questionáveis. Vi reportagem exaltando a crueldade do assassino baseada no fato de que ele teria mandado as crianças sentarem ou ajoelharem para serem mortas, tendo em vista que os tiros foram dados de cima pra baixo. A crueldade do cara não tem discussão, não tem desculpa. Mas, calma lá. O cara era um adulto. As crianças estavam em aula, certo? Crianças em aula costumam ficar sentadas... Ou seja, sim, os tiros vieram de cima pra baixo, de um adulto em pé na direção de adolescentes sentados, pelo único fato de que eles já estavam sentados! Por tudo que já vi até agora não teria dado nem tempo de tanto "diálogo", pra ele mandar alguém fazer alguma coisa....
Ontem apareceu algum secretário de governo do Rio falando que o problema todo é que as escolas daquele estado não têm porteiro e só por isso essa tragédia toda teria acontecido... Oi?!? O cara era ex-aluno da escola, pessoal! Mesmo em escolas particulares, com o aparato de segurança mais bem montado do mundo, um ex-aluno sem histórico de problemas de comportamente seria barrado! O cara premeditou tanto a ação toda que ele tinha uma desculpa oficial para estar dentro da escola. Uma semana antes ele foi lá e solicitou a reemissão do seu histórico escolar. Quantos ex-alunos pedem isso em escolas todo dia, todo mês??? No dia agendado ele voltou à escola, simples assim. O propósito dele era completamente outro, mas isso ninguém sabia e, provavelmente, nem teria como. Agora me explica: como um porteiro de escola podia ter evitado tudo isso?!???
Essa história é triste demais, absolutamente injustificável, ininteligível. Muitos detalhes ainda hão de surgir, muitas entrevistas ainda serão feitas. Teremos as revistas da semana com esse assunto, o Fantástico e até, qm sabe, um Globo Repórter especial. Não acho necessariamente ruim, gostei de um psiquiatra (ih, será que era mesmo?? um desses mil especialistas entrevistados...) que esteve no Jornal Hoje e disse que a sociedade toda foi ferida e que precisa processar a situação toda, precisa viver seu luto. Eu sou daquelas que prefere chafurdar no assunto agora para estar bem em breve, ao invés de ignorar agora pra sofrer um monte depois. Pq sofrer não é bem opcional... Resta torcer pra que as pessoas consigam perceber o limite sutil entre a notícia e o sensacionalismo, entre o informar e o se aproveitar da dor alheia. O que não falta é gente querendo garantir seus 5 minutos de fama...
Era só mesmo um desabafo... Aguardemos por dias melhores. Pra sempre.

PS: soube desta notícia pelo twitter, tendo em vista que passei o dia todo fora de SP, a trabalho, sem nenhum contato com tv. E como falavam em "crianças mortas", me surpreendi ao ver, no Jornal Nacional, que eram adolescentes. A dor e a barbárie não diminuem em nada, mas, convenhamos... Numa situação normal, chegue pra qualquer destas "crianças" e as chame assim. Vais tomar uma resposta nada simpática, pra ser sutil.
(25.822)

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